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Como me iniciei no mundo do trabalho com tão pouca idade e me desenvolvi muito rapidamente nesse universo, os estudos em nível universitário acabaram relegados como segunda prioridade. Mas não as abandonei! Como atuava no âmbito da micro computação e do desenvolvimento sistemas, a escolha do curso superior recaiu de forma natural na área das Ciências Exatas.
Graduação
Como eu desejava ser aluno de uma universidade pública, que além de gratuita fosse renomada, e dispunha apenas do horário noturno para frequentar as aulas, optei pelo único curso noturno disponível na área de Exatas na Universidade de São Paulo (USP) à época: a Licenciatura em Ciências Matemáticas.
Esse curso superior tinha (e ainda tem) por objetivo a formação de professores para escolas de segundo grau. Assim, além de disciplinas de cálculo, geometria, álgebra e outras muitas opcionais da própria matemática, tive a oportunidade de cursar disciplinas da Faculdade de Educação, incluindo temas como didática de ensino e várias disciplinas da área da psicologia.
No último ano, como parte das disciplinas chamadas de “prática de ensino” , era obrigatório atuar como estagiário numa escola pública. Como eu já tinha mais de dez anos de prática real de ensino e possuía um automóvel, optei por fazer dessa experiência mais que um carimbo no histórico escolar: me ofereci, e fui aceito sem pestanejar, na única escola de segundo grau do município de Pirapora do Bom Jesus, uma das áreas mais remotas e desassistidas da área metropolitana de São Paulo, onde nenhum aluno da USP havia comparecido antes.
Assim que os professores daquela escola perceberam que eu podia dar aula no lugar deles (estagiários normalmente apenas observam a atuação dos professores e eventualmente tiram dúvidas de alunos de forma individual), eles passaram a faltar regularmente nos dias que eu ia na escola. Minhas aulas foram tão apreciadas pelos alunos, que a turma de formandos daquele ano meu escolheu como paraninfo da turma. Nunca soube de nenhum outro “paraninfo-estagiário”…
Mestrado
Quando me graduei, eu já havia abandonado a vida corporativa e atuava como consultor autônomo. Então, com a autonomia na definição de meus horários, pensei que poderia conciliar minha atividade profissional com estudos de pós graduação em horário diurno.
A escolha de curso era óbvia para mim: eu queria cursar o Mestrado em Ciência da Computação na própria USP. Enfrentei uma grande decepção quando soube que esse curso era acessível apenas a quem tivesse graduação em Ciência da Computação.
Depois de muita insistência, argumentando com meu histórico profissional e o fato de que já estava escrevendo livros na área, finalmente consegui ser aceito como aluno ‘especial’. Na gíria acadêmica isso significa que eu não estava matriculado realmente, apenas podia frequentar as aulas e fazer as provas. E foi acordado com a comissão de admissão que, caso eu fosse bem sucedido nas disciplinas que me recomendaram cursar ao longo de um ano, então poderia vir a ser matriculado como aluno regular.
Ao término desse ano, não apenas fui admitido como aluno regular (e eu levaria mais quatro anos para concluir todas as exigências para completar o mestrado, incluindo aprovação nas disciplinas exigidas, em três exames de qualificação e a apresentação de uma dissertação), mas também fui convidado para ser professor assistente do departamento de Ciência da Computação.
Professor
Minha contratação como professor se deu em regime parcial, isto é, eu tinha de cumprir doze horas semanais dedicado a esta atividade, divididas entre aulas, sua preparação, correção de trabalhos e provas, além da pesquisa científica que viria a embasar minha dissertação.
Naquela época o uso de microcomputadores começou a se espalhar por toda a universidade. Várias unidades começaram a construir laboratórios de informática, e precisavam instruir seus alunos e professores sobre o seu uso. Assim, a demanda por cursos de introdução à computação aumentou significativamente.
Por essa razão, além da tradicional introdução à computação para alunos da Escola Politécnica, dos vários cursos de engenharia, acabei sendo escalado para disciplinas de computação em várias unidades da USP, como a Faculdade de Administração e Contabilidade (FEA), a Saúde Pública e no curso de Direito, na tradicional escola do Largo São Francisco.
Após dez anos como professor, eu já tinha iniciado minha atividade como empreendedor, e já estava envolvido em atividades voluntárias em entidades empresariais. Meu avó sempre dizia que “com um traseiro não dá pra participar de duas festas”, e eu não consegui dar conta de três. Foi por isso que, mesmo tendo sido escalado para ministrar disciplina do último ano do bacharelado em Ciência da Computação (a disciplina de Construção de Compiladores), acabei apresentando um pedido de demissão, que levou um ano e meio para ser aceito.
Um último “suspiro” acadêmico
Menos de dois anos depois de ter abandonado a USP, fui convidado por um professor titular da Escola Politécnica, recém retornado à Universidade após ocupar um cargo no Governo do Estado de São Paulo, para fazer parte de uma equipe multi disciplinar para trabalhar com políticas públicas em Tecnologia, e que me permitiria completar um Doutorado.
Passados alguns meses, entretanto, este professor foi nomeado prefeito da Cidade Universitária, e as pessoas que o substituíram, algumas mais novas que eu, não tinham interesse no assunto da pesquisa. Ainda intentei mudar o tema da pesquisa, mas diante da falta de atenção aos meus projetos, acabei desistindo de obter um título de “doutor”.
