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No dia 18 de março de 1987, fui privilegiado com uma conversa que provavelmente seja a mais longa conversa individual que Bill Gates manteve durante sua primeira visita ao Brasil.
Na época, eu atuava como voluntário no Grupo de Usuários Microsoft, que tinha por objetivo promover o uso de microcomputadores (hardware) e os novos softwares desenvolvidos para eles. Naquele ano, organizamos uma conferência no Hotel Hilton (que na época ocupava um prédio na Avenida Ipiranga, no centro da cidade de São Paulo), e para nossa alegria, Bill Gates, o ‘dono’ da Microsoft, aceitou nosso convite para ser palestrante naquela conferência.

Durante o dia da conferência fui encarregado de auxiliar nosso ilustre visitante como intérprete, porque ele não falava nenhuma palavra de português. A minha maior surpresa foi a solicitação dele para dispor de uma sala reservada, com o objetivo de se preparar para a palestra dele: após conseguir a sala, ele se sentou à mesa, puxou o texto da apresentação (que já estava preparada) e ficou lendo e relendo o discurso até momentos antes de ser chamado para ministrar a palestra no auditório principal.
Na noite do mesmo dia, foi organizado um jantar de homenagem a Bill Gates na casa do presidente do Grupo de Usuários Microsoft. Esse cargo era exercido pelo Juan Ramón Sanchis Alberich, empresário de origem catalã e dono da empresa Solaris, que residia numa ampla mansão no bairro do Morumbi, e que contratou um chef especializado na preparação de paellas para a ocasião. Neste jantar, participaram não apenas as lideranças do Grupo de Usuários, mas foram convidadas lideranças empresariais e políticas, que praticamente monopolizaram as conversas com Bill Gates a noite toda. Apenas por alguns momentos conseguimos que ele autografasse o livro “Programmers Now”, recém lançado pela Microsoft Press à época.

Pouco após a meia-noite, fui procurado pelo Juan Ramón, nosso anfitrião, que veio me perguntar se meu domínio do inglês era suficiente para manter uma conversa técnica sobre ‘bits e bytes’. Disse que Bill Gates havia lhe manifestado estar cansado de conversas sobre política, economia e negócios, e tinha pedido poder conversar sobre aspectos técnicos de programação. Felizmente, estava a altura do desafio.
Foi assim que sentei sozinho com Bill Gates num sofá que estava no canto da sala, atrás da lareira que pode ser vista na foto acima, e lá permaneci por quase duas horas! Na época, Bill Gates liderava o desenvolvimento dos ambientes integrados de desenvolvimento para linguagens de programação como C e Basic cujos nomes comerciais iniciavam com a marca ‘Quick’: QuickC e QuickBasic foram os precursores das famílias de linguagens de programação conhecidas pelo nome Visual (como o VisualBasic, que continua em uso dentro do Microsoft Office, tanto como linguagem quanto como marca comercial). Nossa conversa girou em torno de detalhes técnicos da construção destes ambientes, assunto do qual eu felizmente tinha domínio.
De toda a conversa, lembro de uma observação que fiz, sobre a dificuldade da detecção de erros de sintaxe nos programas pela família Quick: quando havia um erro, eles apontavam apenas a linha contendo o erro, mas não a posição dentro da linha de programação onde o erro tinha sido detectado. As versões mais recentes dos ambientes de desenvolvimento da Microsoft superaram essa limitação, mas nunca tive a confirmação de que tenha sido em função desta conversa.
A longa duração da minha conversa com Bill Gates, de conteúdo inacessível para os convidados que não eram técnicos, fez com que muitos convidados começassem a se retirar na medida que a madrugada avançava. Pouco depois das duas da manhã, a Melinda French, na época namorada (e atualmento ex-esposa) dele interrompeu nossa conversa educadamente, e eles também retornaram para o hotel onde estavam hospedados, encerrando a única oportunidade na vida que tive de conversar por tanto tempo em privado com alguém de tanto destaque.
