Como o uso pioneiro de tecnologia em saúde me levou a ser suspeito de terrorismo no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha
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Durante os anos finais do meu primeiro casamento, em função das dificuldades que estávamos vivendo, acabei desenvolvendo diversos problemas de saúde, a maioria deles decorrente da somatização das dificuldades emocionais.
Entre essas consequências, a mais duradoura — e também a mais difícil de tratar — foi o desenvolvimento de apneia obstrutiva do sono.
Naquela época, o tratamento desta doença ainda estava em uma fase relativamente incipiente no Brasil. O único lugar do país onde se realizava a polissonografia, exame utilizado para diagnosticar o problema, era o Instituto do Sono da Faculdade de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de Sâo Paulo).
Inicialmente, os médicos que me ajudaram se dedicaram a me tratar com procedimentos que pudessem melhorar minha capacidade de respirar enquanto eu dormia. Assim, fui submetido a uma cirurgia para corrigir um desvio de septo nasal, usei um aparelho experimental destinado a modificar a posição da mandíbula na boca, abrindo assim mais espaço no fundo dela para facilitar a passagem do ar, entre outros, ao longo de vários anos.
Mas todos esses anos de dedicação ao tratamento não produziram o resultado esperado. Pelo contrário: a apneia continuou progredindo cada vez mais!
Até que um dos tantos exames de polissonografia que fiz apresentou um resultado assustador: SESSENTA episódios de apneia por hora de sono. Ou seja, o exame revelava que eu passava por uma parada respiratória a cada minuto, em média, e com duração média superior a vinte segundos!
Isso significa que, durante mais de um terço do tempo em que eu dormia, eu simplesmente não respirava.
Diante desse quadro, o médico que me acompanhava, professor da Unifesp, recomendou que eu começasse a usar um aparelho chamado CPAP, abreviatura de Continuous Positive Air Pressure em inglês. Este aparelho injeta ar sob pressão nas vias aéreas enquanto o paciente dorme, de forma a garantir que as vias não fechem, nem que pare de entrar ar fresco nos pulmões.
Naquela época, esse tipo de equipamento ainda não era autorizado pela ANVISA – Agência Nacional de Vigilância Sanitária para comercialização no Brasil. A única maneira de conseguir um era importá-lo, como pessoa física, dos Estados Unidos. E assim fiz…
Quando o aparelho chegou na alfândega, fui obrigado a contratar um despachante em Brasília, cidade onde se localiza a sede da ANVISA, para conseguir sua liberação. Me exigiram uma declaração pela qual eu assumia total responsabilidade pelas consequências do uso do equipamento, já que ele não era autorizado no país.
(Nos dias de hoje, algumas poucas décadas depois, aparelhos do tipo CPAP, inclusive variações mais modernas, são extremamente comuns e podem ser encontrados facilmente em lojas especializadas e até em grandes portais de comércio eletrônico.)
Pois bem. Passei então a dormir com o CPAP e, felizmente, minha adaptação foi muito rápida. O aparelho tornou-se tão importante para mim que passou a ser meu companheiro de viagens: onde quer que eu fosse, e por quantos dias, ele ia sempre comigo.
Foi assim que, em 2011, durante uma viagem de quase quarenta dias ao longo dos quais mudei de continente várias vezes, voei de Bogotá, capital da Colômbia, com destino a Berlim, capital da Alemanha, fazendo conexão no aeroporto de Frankfurt.

O voo de Bogotá para Frankfurt é bastante longo. Foram cerca de quinze horas de viagem, além das sete horas de diferença de fuso horário. Cheguei a Frankfurt no início da tarde.
Ao longo dessas viagens eu sempre carregava meu CPAP na bagagem de mão, por tratar-se de um produto eletrônico e de alta tecnologia. Ainda assim, não apenas nessa viagem mas em muitas outras anteriores, o equipamento já havia passado por muitos controles de segurança e raios X, sem nunca ter tido qualquer dificuldade.
Ao ingressar na Alemanha, com o voo vindo de Bogotá, portanto de fora da área de Schengen, também não houve qualquer dificuldade para passar os controles e adentrar o saguão principal do aeroporto, considerado território europeu.

Meia hora mais tarde decidi entrar na área de embarque dos voos internos à União Europeia, (veja o tamanho do quadro de voos acima), para me preparar com toda calma para o voo de Frankfurt para Berlim — um voo de menos de uma hora de duração — aconteceu algo inesperado.
Ao passar minha bagagem de mão pelo aparelho de raio-X, os funcionários da segurança começaram a balançar a cabeça e a olhar para o monitor com cara de desconfiança.
E chamaram alguém que eu ainda não sabia quem era.
Mais tarde descobri que ele era o supervisor da segurança de plantão: um senhor de meia-idade, baixinho e de cabelos brancos. Os funcionários apontaram para a tela, ele olhou também, depois olhou para mim e me perguntou, em alemão:
— Você fala alemão?
Como eu falo alemão, respondi que sim. Aí veio a próxima pergunta:
— Seu embarque está próximo?
Daí informei que não – ainda faltavam quase três horas para a decolagem de meu voo para Berlin.
Então ele me comunicou, em tom bem formal:
— Precisamos verificar um objeto que você está levando consigo. Por favor, acompanhe-me.
Ele me levou até uma sala escondida atrás de uma porta próxima ao aparelho de raio-X, onde outros passageiros já passavam pelo controle de segurança.
Uma vez dentro dessa sala, ele me pediu que eu colocasse minha bagagem de mão — que era uma simples sacola de pano marrom — sobre um balcão e abrisse o zíper.
Assim que abri, ele apontou diretamente para o local onde estava o CPAP.
Ele o pegou e disse:
— Espere aqui.
O homem levou o aparelho para outra sala, no fundo daquela área, separada do local onde eu estava por uma grossa parede de vidro.
E então vi uma cena que parecia saída de um filme de ficção científica.
No centro da outra sala havia uma espécie de torre de vidro. No alto da torre, havia uma caixa de vidro totalmente fechada, mas com uma pequena porta.
O supervisor abriu essa porta, colocou meu CPAP dentro da caixa, e a fechou. A seguir se afastou.
Alguns instantes depois, comecei a ver algo que parecia uma espécie de raios elétricos dentro da caixa: as descargas saíam do meu aparelho em todas as direções!
Ixi! Vão destruir o meu aparelho!
Foi o primeiro pensamento que me passou pela cabeça.
Fiquei ali apenas observando (não podia fazer outra coisa!).
Não tenho a noção exata de quanto tempo se passou. Para mim, pareceu uma eternidade, embora provavelmente tenham sido apenas alguns minutos.
Finalmente, os “raios” cessaram.
Esperei mais uns 20 ou 30 segundos.
Então vi o homem voltando à sala, abrindo a portinha da caixa de vidro e retirando meu aparelho de dentro dela.
À distância, me parecia inteiro.
Ele pegou o CPAP, saiu da sala, veio ao meu encontro e, em perfeito e educado alemão, disse:
— Muito obrigado pela sua paciência. Nós examinamos o seu aparelho e concluímos que ele não oferece nenhum perigo para os demais passageiros.
E me devolveu o CPAP!
— O senhor pode levá-lo.
Agradeci educadamente e ainda perguntei se poderia reorganizar o aparelho dentro da minha sacola ali mesmo, na sala, ou se seria melhor fazer isso do lado de fora.
Ele respondeu:
— Pode fazer aqui. Não tem nenhum problema, nem pressa.
Como eu sou bastante alto, para alcançar a altura do balcão e guardar o aparelho, eu precisei me abaixar, curvando a coluna para guardar novamente o CPAP.
Foi nesse momento, enquanto eu estava abaixado, que o supervisor se aproximou do meu ouvido e, em voz muito baixa, perguntou:
— Mas, afinal, para que serve esse aparelho mesmo?
Foi aí que tudo fez sentido.
Moral da história: mesmo sendo o supervisor da segurança do aeroporto de Frankfurt e tendo acabado de submeter meu aparelho a uma sofisticada inspeção que parecia saída de um laboratório de ficção científica, quase dez anos depois de eu ter começado a usar o equipamento, ele ainda não sabia exatamente o que era um CPAP!
E eu, que até alguns minutos antes só estava preocupado em pegar meu voo para Berlim, descobri que meu inocente aparelho para dormir havia conseguido, por alguns instantes, me transformar em um potencial suspeito de terrorismo no aeroporto de Frankfurt.
Definitivamente, esta foi uma de muitas viagens que nunca esquecerei.
Sim, o aparelho de CPAP continuou a funcionar pelo resto da viagem e ainda por muitos anos! Os raios alemães não o danificaram.
