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Quando iniciei a elaboração da minha dissertação de mestrado, cujo tema foi “Sistemas para o Desenvolvimento de Interfaces de Usuário”, numa época na qual a interface gráfica Windows ainda nem existia, decidi que além da revisão dos sistemas existentes à época, eu deveria incluir uma parte prática no trabalho, que consistiu na criação de uma ferramenta, destinada a cuidar de todos os detalhes da Interface de Usuário para programadores que desenvolviam sistemas usando a linguagem de programação C, com a qual eu tinha me envolvido profundamente, ao ponto de escrever um livro sobre ela.
Para quem é leigo em programação, a palavra ‘ferramenta’ é utilizada para designar programas, aplicativos ou conjuntos de instruções especificamente projetados para auxiliar os desenvolvedores a aumentar sua produtividade. Desde que aprendi a programar ainda adolescente, sempre tive essa preocupação de (usando palavreado matemático) “tirar fator comum” tudo que se repetisse no processo de programação. E devo confessar que repeti esse gesto de construção de ferramentas várias vezes ao longo da vida.
Essa primeira ferramenta para interfaces de usuário, para a qual criei a marca MITUI, foi a pedra fundamental da minha primeira empresa. A ferramenta foi desenvolvida para ser usada por programadores em linguagem C, em qualquer lugar do mundo (com a documentação disponível em inglês). Ela foi objeto de reportagens em diversas revistas internacionais destinadas a programadores, dentre as quais as mais destacadas foram a revista Byte (Estados Unidos) e a ProgramNow (Reino Unido). Graças a essa cobertura editorial global, as vendas da ferramenta deram ao volta ao mundo. Na época, eu tinha atrás da minha mesa um quadro que era um mapa-múndi gigante colado sobre uma chapa de isopor. Conforme nosso produto atingia novos lugares, colocávamos pinos sobre o mapa.
Pouco mais de um ano após o lançamento dessa ferramenta, as grandes empresas de tecnologia da informação nos Estados Unidos que produziam compiladores (programas responsáveis por traduzir os programas escritos numa linguagem de programação compreensível por humanos para as instruções específicas disponíveis em um determinado tipo de computador), lançaram os ambientes integrados de desenvolvimento (conhecidos pela sigla IDE, de Integrated Development Environment, em inglês). Esses ambientes passaram a oferecer, pelo mesmo preço dos compiladores, um extenso conjunto de ferramentas adicionais. Assim, a percepção do valor das ferramentas caiu a zero!
Este processo de destruir um mercado para alavancar novos tipos de produtos é conhecido como “canibalização”. E se tornou uma prática recorrente no universo da Tecnologia da Informação. Atualmente, essa prática também é adotada em outros segmentos de negócios.
Foi assim, sendo “canibalizado”, que aprendi na prática que empreender no universo da tecnologia implica na necessidade de modificar a oferta de produtos e serviços a cada poucos anos para poder continuar a operar.
Mas em vez de detalhar a história completa das mudanças desenvolvidas ao longo das já várias décadas de experiência empreendedora (se quiser saber mais, sugiro visitar o site da minha atual empresa), prefiro destacar um outro aspecto: eu não tinha nenhuma noção das questões administrativas, tributárias, de marketing e vendas, e muitos outros aspectos que não são parte da criação de produtos técnicos, mas essenciais ao sucesso de qualquer empreendedor. Esse desconhecimento era fruto da minha origem no mundo profissional em áreas técnicas e no universo acadêmico.
Para sanar essas deficiências me utilizei dos cursos e consultorias do SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio a Pequena e Média Empresa) desde o início. E ainda, antes de completar a primeira década como empreendedor fiz parte de uma das primeiras turmas de um treinamento de imersão chamado Empretec, criado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e operador no Brasil também pelo SEBRAE. O Empretec foca no desenvolvimento de características de comportamento que facilitam o sucesso dos empreendedores.
Com base nesses comportamentos, encontrei uma solução para a ‘solidão do poder’ dos empreendedores: tornei a desenvolver trabalho voluntário, desta vez em entidades empresariais, mas esta parte da história você confere aqui.
