A segunda mão que foi ao espaço

Uma história sobre encontros improváveis, conexões e surpresas que surgiram numa simples fila para tirar uma fotografia com alguém famoso

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Era 2008. Meu filho mais velho estava cursando o último ano do colegial, justamente numa fase em que os jovens começam a se deparar com uma das decisões mais importantes daquela etapa da vida: a escolha de uma profissão a seguir depois da escola.

Para ajudá-los nessa escolha, a escola promoveu um conjunto de encontros que chamou de Fórum de Profissões, reunindo profissionais de destaque de diferentes áreas. Na área de ciência e tecnologia, o convidado era alguém muito especial: Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro.

A escola permitiu que os pais também participassem das apresentações. Foi assim que, numa noite de abril daquele ano, tive o privilégio de estar no auditório da escola para ouvir Marcos Pontes contar a sua trajetória com riqueza de detalhes.

Ele contou sobre sua entrada na Força Aérea, o processo de seleção de astronautas pela NASA, a preparação após a aprovação e, finalmente, a viagem ao espaço. Essa seria de qualquer forma uma história fascinante, mas o modo como ele a relatou indicava total paixão pelo seu ‘trabalho’.

Talvez o momento mais emocionante tenha sido quando ele relembrou a maneira como foi recebido no Brasil após retornar da missão espacial. Aquela foi uma ocasião única: a única de que tenho conhecimento na qual o povo brasileiro saiu às ruas para celebrar uma conquista na área da ciência e tecnologia.

A palestra deveria durar uma hora. Mas Marcos Pontes estava tão envolvido com a narrativa (e o público, igualmente envolvido com ele) que o tempo passou muito além do previsto.

A diretora da escola, preocupada com a programação e com o horário do convidado, começou a sinalizar que era hora de encerrar. Mais de uma vez, explicou que não haveria tempo para perguntas e que ele precisava ir embora.

Mas Marcos não arredou o pé.

O que deveria ser uma hora de conversa transformou-se em quase duas…

E quando finalmente terminou, ele fez um anúncio que provocou uma nova movimentação no auditório: informou que permaneceria no palco para quem quisesse tirar uma fotografia com ele ou pegar um autógrafo!

O auditório estava lotado, e tinha uma capacidade de entre 700 e 800 pessoas. Em poucos segundos, uma enorme fila se formou na lateral do auditório.

E eu decidi entrar nessa fila.

Até aquele momento, eu não conhecia Marcos Pontes e não tinha qualquer relação anterior com ele. Enquanto esperava minha vez, porém, comecei a pensar em como poderia tornar aquele encontro mais marcante. Afinal, depois de quase duas horas de palestra, centenas de pessoas passariam pelo palco para cumprimentá-lo, tirar uma foto e receber um autógrafo. O que eu poderia dizer que tornasse aquele breve encontro diferente?

Foi então que me lembrei de uma viagem que havia feito à Espanha no ano anterior.

Durante um evento na cidade de Valladolid, capital da região de Castilla y León, conheci Pedro Duque, o astronauta espanhol. Na ocasião, ele participava de atividades relacionadas ao parque tecnológico dessa cidade e apresentou projetos de monitoramento por satélite que a empresa dele estava desenvolvendo. Tivemos também a oportunidade de conversar um pouco e, naturalmente, registrei aquele momento em algumas fotografias.

Então, enquanto aguardava na fila, tive uma ideia!

Eu ia dizer a Marcos Pontes que a mão direita dele era a segunda mão que havia ido ao espaço que eu apertava em minha vida.

Demorou cerca de meia hora até chegar minha vez.

Finalmente, diante dele, estendi a mão e disse:

— Boa noite. Esta é a segunda mão que foi ao espaço que eu aperto.

A reação de Marcos, além da surpresa, foi imediata:

Quem você conhece?

Contei então a ele sobre Pedro Duque e sobre o encontro que havíamos tido na Espanha.

Marcos explicou-me então que os participantes das missões espaciais internacionais são convidados uma vez por ano para um reencontro organizado pela NASA. Assim, mesmo não tendo participado da mesma missão que Pedro Duque, ele também o conhecia.

E assim, aquele elo que eu havia criado durante a espera na fila me ajudou a criar uma conexão que de outra forma não existiria: Marcos se colocou à disposição, pediu que nos conectássemos pelo LinkedIn e chegou a me fornecer seu e-mail pessoal.

Aquele encontro, que deveria durar apenas alguns segundos, acabou sendo o início de uma sequencia de encontros ao longo dos anos.

Voltamos a nos encontrar em diversas oportunidades. Mais tarde, quando Marcos Pontes entrou para a política, primeiro como senador e depois como ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, nossos caminhos continuaram a se cruzar. Em mais de uma ocasião ele participou de reuniões do Conselho de Administração da Confederação Assespro, onde ocupei vários cargos ao longo do tempo, o que gerou novas oportunidades de conversarmos.

Recentemente, ao preparar este relato, voltei a pesquisar sobre Pedro Duque e descobri uma curiosa coincidência: ele também exerceu o cargo de ministro da Ciência e Tecnologia no governo nacional da Espanha.

E foi impossível não perceber o paralelo.

Duas pessoas que conheci em momentos diferentes, em países diferentes, tinham algo extraordinário em comum: ambos foram ao espaço e ambos chegaram a ocupar o cargo de ministro de Estado, responsáveis pela área de ciência e tecnologia em seus respectivos países.

Mas talvez a parte mais interessante dessa história não esteja propriamente nos cargos, nas missões espaciais ou mesmo nos astronautas.

Está naquilo que acontece quando estamos dispostos a criar conexões.

Eu poderia simplesmente ter assistido à palestra de Marcos Pontes, aplaudido no final e ido embora. Poderia também ter entrado na fila, tirado uma fotografia e seguido meu caminho.

Mas, enquanto esperava, procurei uma maneira de estabelecer uma conexão entre aquela pessoa que estava diante de mim e uma experiência que eu havia vivido anteriormente.

Em poucos segundos abri espaço para uma conversa e para ser lembrado, no meio de uma pequena multidão. Um exemplo de como certas coisas começam de maneira muito simples.

Uma palestra que se estende além do horário.

Uma fila inesperada.

Uma lembrança de uma viagem.

Uma frase dita no momento certo. E, finalmente, duas mãos direitas que um dia foram ao espaço literalmente!


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